Um orçamento de obra responde a duas perguntas ao mesmo tempo: quanto a obra vai custar para quem executa e por quanto ela deve ser vendida. A primeira resposta é o custo direto; a segunda é o preço de venda, que soma ao custo direto as despesas indiretas, os impostos e o lucro. Quase todo orçamento que dá errado erra numa dessas três frentes: a quantidade, o custo unitário ou o BDI.
Para o dono da construtora: o orçamento é onde o lucro da obra é decidido. Um erro de 5% na quantidade ou no BDI, numa obra de R$ 2 milhões, são R$ 100 mil que nenhuma gestão de canteiro recupera depois.
Este guia segue a ordem em que um orçamento detalhado deve ser montado, com um exemplo numérico que atravessa todas as etapas. Os temas que pedem aprofundamento têm artigo próprio, indicado ao longo do texto.
O que é orçamento de obra
Orçamento de obra é a estimativa do custo e do preço de um empreendimento obtida pela soma das quantidades de cada serviço multiplicadas pelos respectivos custos unitários, acrescida do BDI. No orçamento detalhado, cada custo unitário vem de uma composição que lista insumos, mão de obra e equipamentos com seus coeficientes de consumo.
Em forma de fórmula:
Preço de venda = Σ (quantidade × custo unitário) × (1 + BDI)
Parece simples, e a simplicidade engana. A quantidade depende de projeto e de critério de medição; o custo unitário depende de produtividade, preço de insumo, encargos e local; o BDI depende do regime tributário, do risco e da estrutura da empresa. Cada parte tem uma fonte de erro diferente e precisa ser documentada separadamente.
Os níveis de orçamento e quando usar cada um
Nem todo orçamento precisa do mesmo nível de detalhe. O que muda é a informação disponível e a decisão que ele vai apoiar. (A forma de apresentar — resumida por serviço ou aberta em insumos — é outra coisa: veja orçamento analítico e sintético.)
| Nível | Base | Precisão típica | Serve para |
|---|---|---|---|
| Estimativa de custo (paramétrico) | custo por m², CUB, obras semelhantes | baixa | viabilidade, decidir se vale estudar |
| Orçamento preliminar | anteprojeto, quantidades por índice | média | negociação inicial, captação |
| Orçamento detalhado (analítico) | projeto executivo, quantitativos e composições | alta | contratar, planejar, comprar, controlar |
A estimativa por metro quadrado é útil no começo, desde que se saiba o que ela não inclui. O artigo sobre CUB mostra como ajustar o CUB para fundações, elevadores e projetos, que ficam de fora dele. Para contratar e controlar a obra, só o orçamento detalhado serve, e é dele que trata o restante deste guia.
Etapa 1: escopo e estrutura analítica do projeto (EAP)
Antes de levantar qualquer quantidade, defina o que está dentro e o que está fora do orçamento e organize os serviços em uma estrutura hierárquica. A EAP de orçamento costuma seguir a sequência construtiva: serviços preliminares, movimento de terra, fundações, estrutura, alvenaria, cobertura, instalações, revestimentos, pisos, esquadrias, pintura, serviços complementares e administração local.
Três decisões tomadas aqui afetam todo o resto:
- Nível de agrupamento. A estrutura do orçamento será a estrutura do controle de custos e do cronograma. Se a fundação aparecer como um único item, não haverá como saber depois se o estouro foi na estaca ou no bloco.
- Administração local como custo direto. Engenheiro residente, mestre, almoxarife, canteiro, consumo de água e energia da obra: em obra pública, o TCU orienta discriminar esses itens na planilha de custos diretos, e não escondê-los no BDI. Em obra privada vale a mesma lógica — o que é medível e específico da obra deve ser orçado como custo da obra.
- Premissas por escrito. Tipo de fundação considerado, padrão de acabamento, prazo, quem fornece o quê. Sem premissas, qualquer revisão vira discussão.
Etapa 2: levantamento de quantitativos com memória de cálculo
Cada serviço precisa de uma quantidade, na mesma unidade da composição que vai precificá-lo: m² de alvenaria, m³ de concreto, kg de aço, unidade de ponto elétrico.
A regra que evita a maior parte dos problemas: toda quantidade precisa de memória de cálculo — de onde veio (prancha, pavimento, eixo), qual fórmula, quais descontos. Exemplo de memória de alvenaria de uma parede:
| Parede | Comprimento (m) | Pé-direito (m) | Área bruta (m²) | Vãos descontados (m²) | Área líquida (m²) |
|---|---|---|---|---|---|
| Eixo A, 1º pavimento | 12,40 | 2,80 | 34,72 | 2 janelas 1,20×1,20 = 2,88 | 31,84 |
Sem essa linha, ninguém consegue conferir o número 31,84 seis meses depois, quando o empreiteiro mede outra coisa. O critério de desconto de vãos (descontar todos, ou só os que passam de certa área) deve seguir o critério de medição da composição usada — os cadernos técnicos do SINAPI trazem esse critério por serviço. O tema é aprofundado no artigo sobre levantamento de quantitativos.
Etapa 3: composições de custo unitário
A composição transforma uma unidade de serviço em consumo de recursos. Uma composição simplificada de alvenaria de vedação com bloco cerâmico, por m²:
| Insumo | Unidade | Coeficiente | Custo unitário (R$) | Custo (R$/m²) |
|---|---|---|---|---|
| Bloco cerâmico 9×19×29 cm | un | 17,50 | 1,30 | 22,75 |
| Argamassa de assentamento | m³ | 0,0120 | 520,00 | 6,24 |
| Pedreiro | h | 0,80 | 32,00 | 25,60 |
| Servente | h | 0,40 | 24,00 | 9,60 |
| Total | 64,19 |
Valores ilustrativos, apenas para mostrar a mecânica. Use os preços da sua região e da sua data-base.
Os coeficientes de mão de obra (0,80 h de pedreiro por m²) são a parte mais sensível: eles representam produtividade. Uma equipe que produz mais do que a referência barateia o serviço; uma que produz menos o encarece, e isso não aparece em lugar nenhum se a composição for copiada sem revisão. Veja como ler e ajustar coeficientes em composição de custo unitário e como medir a produtividade real da equipe em produtividade da mão de obra.
Etapa 4: preços dos insumos e data-base
O custo unitário de cada insumo vem de uma de três fontes:
- Bases de referência — SINAPI para edificações e a maior parte das obras civis, SICRO para infraestrutura de transportes, além de bases estaduais. Em obra com recurso federal, a Lei 14.133/2021 (art. 23, §2º) manda usar como primeiro parâmetro composições com custo menor ou igual à mediana do SICRO, para infraestrutura de transportes, ou do SINAPI, para as demais obras. O guia prático do SINAPI e o artigo sobre o SICRO explicam cada base.
- Cotação de mercado — obrigatória para insumos que a base não tem ou cujo preço de referência está distante do que a empresa realmente paga.
- Histórico próprio — o preço efetivamente pago nas últimas compras. É a fonte mais fiel para obra privada, desde que esteja organizado por insumo e por data.
Seja qual for a fonte, registre a data-base: o mês a que os preços se referem. Ela define a partir de quando o contrato será reajustado e permite comparar o orçamento com qualquer índice depois. Misturar preços de meses diferentes no mesmo orçamento é um dos erros mais comuns e mais difíceis de achar.
Etapa 5: encargos sociais
O custo da hora do pedreiro na composição não é o salário dividido pelas horas: inclui encargos sociais — contribuições previdenciárias, FGTS, férias, 13º, repouso remunerado, faltas justificadas e outros. Para mão de obra horista, os encargos costumam passar de 100% sobre a hora normal no regime não desonerado.
O percentual depende do estado, do regime (desonerado ou não) e de a mão de obra ser horista ou mensalista. Desde 2025 a desoneração da folha da construção está em transição gradual até 2028, o que muda a conta ano a ano. Os detalhes estão em encargos sociais na construção civil e a decisão de tabela em SINAPI desonerado ou não desonerado.
Etapa 6: custo direto total e Curva ABC
Com quantidades e custos unitários, o custo direto sai da soma. Continuando o exemplo de um pequeno edifício residencial de 1.200 m²:
| Grupo de serviços | Custo direto (R$) | Participação |
|---|---|---|
| Estrutura de concreto armado | 520.000 | 26,0% |
| Instalações elétricas e hidrossanitárias | 300.000 | 15,0% |
| Alvenaria e revestimentos | 360.000 | 18,0% |
| Fundações | 180.000 | 9,0% |
| Esquadrias, pisos e pintura | 340.000 | 17,0% |
| Administração local | 140.000 | 7,0% |
| Demais serviços | 160.000 | 8,0% |
| Custo direto total | 2.000.000 | 100% |
Antes de seguir, gere a Curva ABC de insumos e de serviços. Em orçamentos de edificação, poucos itens concentram a maior parte do valor; são eles que merecem cotação real, revisão de coeficiente e atenção na negociação. Um erro de 10% num item que pesa 0,3% do orçamento é irrelevante; o mesmo erro no aço ou no concreto muda a margem da obra. O passo a passo está em Curva ABC na obra.
Etapa 7: BDI e preço de venda
O BDI (Benefícios e Despesas Indiretas) é o percentual que transforma custo direto em preço. Ele cobre administração central, seguros e garantias, riscos, despesas financeiras, tributos sobre o faturamento e lucro. A fórmula usada como referência pelo TCU é:
BDI = [(1 + AC + S + R + G) × (1 + DF) × (1 + L) / (1 − I)] − 1
Em que AC é a administração central, S + G seguros e garantias, R riscos, DF despesas financeiras, L lucro e I os tributos sobre o preço. O Acórdão 2622/2013 do TCU traz faixas de referência por tipo de obra; para construção de edifícios, o BDI médio da amostra foi de 22,12%, com 1º quartil de 20,34% e 3º quartil de 25,00%.
No exemplo, com BDI de 23%:
Preço de venda = R$ 2.000.000 × 1,23 = R$ 2.460.000
Dois cuidados: não colocar no BDI o que já está no custo direto (administração local é o caso clássico) e não aplicar o mesmo BDI a fornecimento de materiais e equipamentos relevantes, que o TCU trata com faixa própria e menor. Fórmula, faixas e exemplo completo estão em como calcular o BDI.
Revisão: o que conferir antes de entregar
Um roteiro curto que pega a maior parte dos erros:
- Custo por m² do orçamento comparado com obras semelhantes da empresa e com o CUB da região ajustado. Diferença acima de 15% pede explicação.
- Peso de cada grupo comparado com a distribuição usual da tipologia. Estrutura com 10% num edifício de concreto armado é sinal de quantidade faltando.
- Itens da curva A com preço cotado e coeficientes revistos.
- Data-base única em todos os preços.
- Encargos coerentes com o regime da empresa.
- Nenhum item em duplicidade entre custo direto e BDI.
- Premissas e exclusões escritas na proposta.
Erros que mais custam
| Erro | Consequência | Como evitar |
|---|---|---|
| Quantidade sem memória de cálculo | revisão impossível, discussão na medição | memória por item, com origem e fórmula |
| Composição copiada sem revisar produtividade | custo de mão de obra fora da realidade | comparar coeficientes com apontamentos de obras anteriores |
| Preços de meses diferentes | orçamento sem data-base; reajuste incorreto | data-base única e registrada |
| Administração local dentro do BDI | BDI inflado, difícil de defender | administração local como custo direto |
| Orçamento aprovado e arquivado | obra sem referência de controle | usar a mesma estrutura no cronograma, nas compras e na apropriação |
Depois da aprovação: o orçamento vira referência de controle
O valor do orçamento detalhado não termina na proposta. A mesma estrutura de serviços passa a ser a base do cronograma da obra, das compras planejadas pela data de necessidade e do controle de custos, em que cada gasto é apontado no serviço do orçamento a que pertence. Quando essas três coisas usam estruturas diferentes, o previsto × realizado só funciona no total — e no total já é tarde para corrigir.
É nesse ponto que a planilha costuma ceder. O orçamento está num arquivo, o cronograma em outro, as compras em uma terceira planilha, e cada revisão precisa ser replicada à mão. No orçamento do EVOP, o orçamento é montado com bases oficiais ou próprias, BDI e encargos configurados por orçamento, versões com histórico de aprovação e Curva ABC — e, depois de aprovado, alimenta o planejamento, as compras e o acompanhamento de custos da obra, no mesmo sistema. As quantidades podem vir da Central de Quantitativos, com memória de cálculo de cada medida.
Para ver esse fluxo no EVOP com uma obra sua, fale com um especialista.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre custo e preço no orçamento de obra?
Custo é quanto a obra consome de recursos para ser executada: materiais, mão de obra com encargos, equipamentos e administração local. Preço é o valor de venda, que soma ao custo o BDI — administração central, riscos, despesas financeiras, tributos e lucro.
Quanto tempo leva para fazer um orçamento detalhado?
Depende do tamanho do projeto e da qualidade das pranchas. O que mais consome tempo é o levantamento de quantitativos; composições e preços andam rápido quando a empresa tem base própria organizada.
Posso usar só o SINAPI para orçar uma obra privada?
Pode como referência, mas o SINAPI representa preços medianos e produtividades de referência. Para uma proposta competitiva, cote os itens da curva A e ajuste os coeficientes à produtividade real da sua equipe.
O que é data-base do orçamento?
É o mês de referência dos preços usados. Ela precisa ser única em todo o orçamento e registrada na proposta, porque é o ponto de partida do reajuste do contrato.




