O custo unitário recebe quase toda a atenção no orçamento, mas é a quantidade que multiplica. Uma composição de alvenaria perfeita aplicada sobre 1.600 m² quando a obra tem 1.840 m² produz um orçamento 13% abaixo nesse serviço — e ninguém descobre até o empreiteiro medir. O levantamento de quantitativos é a etapa mais demorada do orçamento e a que mais se beneficia de método.

Para a sua construtora: quantidade errada multiplica o erro de qualquer preço — e vira discussão com o empreiteiro na primeira medição. Memória de cálculo é o que permite defender cada número.

O que é levantamento de quantitativos

Levantamento de quantitativos é a extração, a partir dos projetos, da quantidade de cada serviço da obra, na unidade de medida da composição que vai precificá-lo. Cada quantidade deve vir acompanhada da memória de cálculo: de onde foi tirada, com que fórmula e com quais descontos.

Antes de começar: projeto, escopo e critério

Três verificações economizam retrabalho:

  1. Versão dos projetos. Liste as pranchas e revisões usadas. Quantidade tirada da revisão B quando a obra vai seguir a D é a origem de metade das discussões de aditivo.
  2. Compatibilização. Arquitetura e estrutura batem? Vão de janela na arquitetura com viga passando no lugar é problema de projeto, mas vira erro de quantidade se ninguém perceber.
  3. Critério de medição de cada serviço. Ele vem da composição usada. Os cadernos técnicos do SINAPI, por exemplo, definem para cada composição como o serviço é medido — se vãos são descontados e a partir de que área, se a forma é medida pela área de contato com o concreto, se o aço é medido pelo peso nominal. A quantidade deve seguir esse mesmo critério; caso contrário, o custo unitário certo multiplica uma quantidade incompatível.

Organize o levantamento pela estrutura do orçamento

Levante na mesma estrutura em que o orçamento será montado (fundação, estrutura, alvenaria…) e, dentro de cada serviço, por local: pavimento, bloco, trecho, eixo. Isso permite:

  • conferir pavimento a pavimento (o tipo se repete — por que o 5º deu diferente do 4º?);
  • planejar e medir por local depois, no cronograma e na Linha de Balanço;
  • revisar só o trecho que mudou quando o projeto mudar.

Memória de cálculo: o mínimo que ela precisa ter

CampoExemplo
ServiçoAlvenaria de vedação, bloco cerâmico 9 cm
Local3º pavimento, eixo C entre 2 e 5
OrigemARQ-03 rev. D
Fórmula9,85 × 2,82 − (2 × 0,80 × 2,10)
Resultado24,42 m²
Observaçãoportas descontadas; janelas abaixo de 2 m² não descontadas, conforme critério da composição

A coluna "fórmula" é a mais importante. Um número digitado (24,42) não pode ser auditado; uma expressão pode. Quando o pé-direito muda de 2,82 para 2,88, quem tem a fórmula ajusta em segundos.

Exemplos por tipo de serviço

Concreto (m³). Volume geométrico de cada peça, por pavimento. Laje maciça de 12 cm sobre 210 m²: 210 × 0,12 = 25,20 m³. Vigas e pilares separados, sem contar duas vezes o volume no encontro.

Forma (m²). Área de contato com o concreto: fundo e laterais da viga, faces do pilar, fundo da laje. Uma viga de 15 × 50 cm sob laje de 12 cm tem forma lateral de (0,50 − 0,12) por face, não 0,50.

Armadura (kg). Do quadro de ferros do projeto estrutural, por bitola. O peso nominal por metro de cada bitola é tabelado; a perda de corte e dobra fica no coeficiente da composição, não no peso levantado.

Alvenaria (m²). Comprimento × altura entre a estrutura (laje ou viga), descontando vãos conforme o critério da composição.

Revestimentos (m²). Por ambiente e por face. Chapisco, emboço e pintura costumam ter a mesma área base, mas critérios de desconto diferentes.

Instalações (m, un). Por sistema e por pavimento: metros de tubulação por diâmetro, pontos por tipo, peças por modelo. Conexões costumam ser tratadas por percentual ou por contagem, conforme a composição.

Perda não é quantidade

Um erro recorrente é acrescentar 5% ou 10% de "perda" à quantidade levantada. Nas bases de referência, a perda já está no coeficiente de consumo do material dentro da composição. Somar na quantidade conta duas vezes — e, pior, aumenta também a mão de obra, que é paga pela quantidade executada, não pela comprada. Quantidade é sempre a geométrica, pelo critério de medição; a perda é do material.

Conferência por índices

Depois de levantar, compare com índices de obras semelhantes da própria empresa. Eles não substituem o levantamento, mas acusam erros grosseiros:

ÍndiceComo calcularPara que serve
Espessura média de concretom³ de concreto ÷ m² de área construídadetecta pavimento esquecido ou duplicado
Taxa de armadurakg de aço ÷ m³ de concretodetecta quadro de ferros lido pela metade
Taxa de formam² de forma ÷ m³ de concretodetecta forma de laje esquecida
Alvenaria por áream² de alvenaria ÷ m² de área construídadetecta paredes duplicadas ou faltando
Pontos elétricos por ambientepontos ÷ número de ambientesdetecta pavimento sem instalação

Se o índice da obra estiver muito fora do histórico da empresa para a mesma tipologia, procure a causa antes de seguir. Às vezes há uma explicação de projeto (laje nervurada, estrutura protendida); às vezes é erro.

Levantamento a partir do modelo (BIM, IFC, DWG)

Quantidades extraídas de modelo IFC ou Revit são mais rápidas e consistentes — desde que o modelo tenha sido feito pensando em quantificação:

  • Elementos modelados como na obra. Parede modelada passando por dentro da laje dá área maior; pilar e viga sobrepostos dão volume duplicado.
  • Classificação. Cada elemento precisa estar associado ao serviço certo do orçamento.
  • Critério de medição. O modelo calcula a área geométrica; o desconto de vãos segundo o critério da composição ainda precisa ser aplicado.
  • Revisão humana. O número extraído é ponto de partida, não resultado final.

O mesmo vale para PDF e DWG: ferramentas que medem sobre o desenho aceleram a extração, mas a decisão de critério continua sendo do orçamentista.

Erros que mais distorcem o orçamento

ErroEfeito no orçamento
Pavimento tipo multiplicado pelo número errado de repetiçõeserro de 1/n em todos os serviços do tipo
Revisão de projeto antigaquantidade de obra que não existe mais (ou falta a que existe)
Critério de vão diferente do da composiçãoalvenaria e revestimento fora em 5% a 15%
Perda somada na quantidadematerial e mão de obra inflados
Serviço não levantado ("ninguém olhou o projeto de impermeabilização")custo integral ausente
Quantidade sem memóriaimpossível conferir, revisar ou defender na medição

Da quantidade ao orçamento, sem copiar e colar

O levantamento costuma ser feito numa planilha e o orçamento em outra, ligadas por copiar e colar. Cada revisão de projeto exige refazer a ligação, e a memória de cálculo se perde no caminho.

Na Central de Quantitativos do EVOP, as quantidades são lançadas com fórmulas e expressões, organizadas em subtabelas por pavimento, trecho ou ambiente, ou levantadas direto do projeto em PDF, DWG, IFC ou Revit. Cada valor guarda a expressão que o originou, pode ser revisado antes de ser aplicado no orçamento e tem histórico de onde veio. A memória de cálculo completa sai como relatório. Para o contexto do orçamento inteiro, veja o guia de orçamento de obra.

Para ver esse fluxo no EVOP com uma obra sua, fale com um especialista.

Perguntas frequentes

O que é memória de cálculo no orçamento?

É o registro de como cada quantidade foi obtida: local, origem no projeto, fórmula e descontos. Permite conferir, revisar e defender a quantidade numa medição ou auditoria.

Devo somar perda na quantidade levantada?

Não. A quantidade é geométrica, pelo critério de medição. A perda de material está no coeficiente da composição.

Quantidade tirada do modelo BIM dispensa conferência?

Não. Ela depende de como o modelo foi construído e não aplica sozinha o critério de medição da composição. Confira por amostragem e por índices.

Fontes e referências