Quem vem do orçamento de edificações e abre uma composição do SICRO pela primeira vez estranha: não há "0,80 h de pedreiro por m²". Há uma equipe de máquinas, uma produção em m³ por hora, horas produtivas e improdutivas e uma série de fatores que não existem no SINAPI. A lógica é diferente porque o serviço é diferente: em terraplenagem e pavimentação, quem produz é o equipamento. (Para o processo geral de orçamento, comum a qualquer base, veja o guia de orçamento de obra.)

Para a sua construtora: em infraestrutura, a produtividade do equipamento decide o custo. Uma produção 25% menor que a do orçamento encarece o serviço em um terço, sem mudar nenhum preço.

O que é o SICRO

O SICRO (Sistema de Custos Referenciais de Obras) é o sistema mantido pelo DNIT que publica custos de referência de insumos, composições de serviços e parâmetros de orçamento para obras e serviços de infraestrutura de transportes — rodovias, ferrovias, obras de arte especiais, aquaviárias e serviços correlatos. A metodologia está nos Manuais de Custos de Infraestrutura de Transportes, organizados em volumes temáticos.

Quando o SICRO é obrigatório

A Lei 14.133/2021, no art. 23, §2º, define a ordem de parâmetros para estimar o valor de obras e serviços de engenharia. O primeiro é a composição de custos unitários menores ou iguais à mediana do item correspondente:

  • do SICRO, para serviços e obras de infraestrutura de transportes;
  • do SINAPI, para as demais obras e serviços de engenharia.

Para o que não existe nos sistemas oficiais, a lei admite outras fontes, na ordem do próprio artigo. Em obras de infraestrutura de transportes com recursos federais, portanto, o orçamento de referência parte do SICRO. Estados e municípios costumam ter tabelas próprias (dos DERs, por exemplo), muitas delas derivadas da metodologia do DNIT. Veja o tema completo em orçamento de referência para licitação de obras.

SICRO × SINAPI: as diferenças de lógica

AspectoSINAPI (edificações)SICRO (infraestrutura de transportes)
Quem produzmão de obra, em geralequipe de equipamentos
Coeficiente principalhoras de mão de obra por unidadeprodução horária da equipe
Equipamentohoras por unidade, produtivas e improdutivascusto horário produtivo e improdutivo, ponderado pela utilização na equipe
Transporte de materialem geral dentro da composiçãoem composições próprias, por momento de transporte (t·km)
Fatores de camponão se aplicam de forma geralfator de influência de chuvas (FIC) e fator de interferência de tráfego (FIT)

Como uma composição do SICRO é montada

1. A equipe

Cada serviço tem uma equipe definida: os equipamentos e a mão de obra que trabalham juntos. Numa camada de base de solo estabilizado, por exemplo, uma motoniveladora espalha, um caminhão-tanque umedece e um rolo compacta.

2. Custo horário produtivo e improdutivo

Cada equipamento tem dois custos horários:

  • Produtivo: máquina operando — depreciação, juros, manutenção, combustível, lubrificantes e operador.
  • Improdutivo: máquina parada à disposição do serviço — custos de propriedade e operador, sem combustível.

Os detalhes de como esses valores são formados estão em custo horário de equipamentos.

3. Utilização na equipe

Nem todo equipamento da equipe trabalha o tempo todo. Se a motoniveladora é o equipamento que dita o ritmo, ela opera 100% do tempo; o rolo pode operar 80% e esperar 20%; o caminhão-tanque, 50%. O custo de cada um na equipe é ponderado:

Custo na equipe = (utilização operativa × custo produtivo) + (utilização improdutiva × custo improdutivo)

4. Produção da equipe

A produção horária (m³/h, m²/h, t/h) vem da capacidade do equipamento que limita o serviço, ajustada por fatores de eficiência e condições de trabalho. Os manuais trazem a memória de cálculo da produção de cada composição — e os editais do DNIT costumam exigir essa memória quando o orçamentista altera parâmetros.

5. O custo unitário

Custo unitário de execução = custo horário da equipe ÷ produção horária

Materiais e transporte entram em linhas próprias.

Exemplo numérico

Equipe ilustrativa para espalhamento e compactação de uma camada (valores fictícios, só para a mecânica):

ItemCusto produtivo (R$/h)Custo improdutivo (R$/h)Utilização operativaCusto na equipe (R$/h)
Motoniveladora280,00110,00100%280,00
Rolo compactador180,0070,0080%158,00
Caminhão-tanque160,0060,0050%110,00
Serventes (3)———84,00
Custo horário da equipe632,00

Com produção de 120 m³/h, o custo de execução é 632 ÷ 120 = R$ 5,27 por m³.

Repare como a produção domina o resultado: se as condições reais derrubarem a produção para 90 m³/h, o custo sobe para R$ 7,02/m³ — 33% a mais, sem que nenhum preço de insumo tenha mudado.

Transporte: momento de transporte

Em infraestrutura, o transporte de materiais (solo, brita, areia, mistura asfáltica) pode pesar tanto quanto a execução. O SICRO trata o transporte em composições próprias, medidas em momento de transporte — massa ou volume multiplicado pela distância (t·km). A distância média de transporte (DMT) entre jazida, usina e frente de serviço precisa estar documentada no projeto; uma DMT subestimada é um dos erros de orçamento rodoviário mais caros.

FIC e FIT: chuva e tráfego

  • FIC (fator de influência de chuvas): reflete as horas em que a equipe fica parada por chuva, conforme a região e a época de execução.
  • FIT (fator de interferência de tráfego): reflete a perda de produtividade quando o serviço é executado com tráfego na via.

Os dois foram objeto de revisão metodológica pelo DNIT, com consulta pública em 2025 dos volumes que tratam desses fatores. Antes de usá-los, confira a edição vigente dos manuais e os informativos do SICRO.

Erros comuns em orçamento com SICRO

  1. Copiar a produção do manual sem olhar a obra. Os parâmetros são médios; o próprio DNIT orienta o orçamentista a ajustá-los quando as condições da obra são diferentes — com memória de cálculo.
  2. DMT sem fonte. Distância de transporte "estimada" em vez de medida em projeto.
  3. Ignorar FIC ou FIT onde se aplicam, ou aplicá-los onde não se aplicam.
  4. Misturar data-base de insumos de períodos diferentes.
  5. Aplicar BDI de edificação. O Acórdão 2622/2013 do TCU tem faixa específica para rodovias e ferrovias (média de 20,97%). Ver como calcular o BDI.

SICRO e SINAPI no mesmo orçamento

Obras de infraestrutura urbana costumam combinar as duas referências: pavimentação e drenagem pelo SICRO (ou pela tabela do DER), edificações de apoio e serviços civis pelo SINAPI. O orçamento precisa indicar a fonte de cada composição e manter a data-base coerente.

Nas bases de preços e composições do EVOP, o SICRO, o SINAPI e outras bases oficiais ficam disponíveis por estado e mês de referência, com as composições analíticas abertas e a possibilidade de derivar composições próprias com produtividade ajustada — a mesma base usada no orçamento. O custo real dos equipamentos na obra, por sua vez, pode ser acompanhado no controle de equipamentos, com horímetro e custo por hora apropriado na etapa.

Quer ver isso funcionando com os números da sua construtora? Solicite uma demonstração.

Perguntas frequentes

O SICRO serve para obras municipais?

Para obras de infraestrutura de transportes com recursos federais, é a referência indicada pela Lei 14.133. Municípios e estados podem ter tabelas próprias; verifique a origem dos recursos e as exigências do convênio ou do edital.

Qual a diferença entre custo produtivo e improdutivo?

Produtivo é o custo da hora do equipamento operando, com combustível e manutenção. Improdutivo é o custo da hora em que ele está à disposição do serviço, mas parado — sem combustível.

Posso alterar a produção de uma composição do SICRO?

O próprio DNIT orienta adaptar os parâmetros médios às condições da obra, desde que a alteração seja justificada com memória de cálculo.

Fontes e referências