"Manda o orçamento sintético" e "preciso do analítico" são pedidos que aparecem em toda licitação, financiamento e negociação com cliente. Os dois nomes descrevem formas de apresentar o mesmo orçamento, com níveis de detalhe diferentes. Entender o que cada um mostra evita dois problemas comuns: entregar um documento que não responde ao que foi pedido e manter duas planilhas que deixam de bater na primeira revisão. Para o processo completo de montagem, do quantitativo ao preço, veja o guia de orçamento de obra.
Para a sua construtora: o sintético vende a obra; o analítico protege a margem. Quem só tem o primeiro descobre o coeficiente errado quando a obra já está no prejuízo.
Qual a diferença entre orçamento analítico e sintético?
O orçamento sintético apresenta cada serviço em uma linha, com código, descrição, unidade, quantidade, custo unitário e custo total. O orçamento analítico mostra, além disso, a composição de cada custo unitário: os insumos, a mão de obra e os equipamentos, com coeficientes de consumo e preços. O sintético diz quanto custa; o analítico demonstra por que custa isso.
O que tem no orçamento sintético
O sintético é a planilha que o cliente lê. Uma linha típica:
| Item | Código | Descrição | Unid. | Quant. | Custo unit. (R$) | Total (R$) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 4.1 | COMP-0412 | Alvenaria de vedação com bloco cerâmico 9×19×29 cm, e = 9 cm | m² | 1.840,00 | 64,19 | 118.109,60 |
Ele costuma trazer também os subtotais por etapa (fundação, estrutura, alvenaria…), o custo direto total, o BDI aplicado e o preço final. É o documento usado para:
- apresentar a proposta e comparar com concorrentes;
- servir de base para o cronograma físico-financeiro, porque mostra o valor de cada etapa;
- medir a obra, já que a medição usa as mesmas linhas e quantidades.
O que o sintético não permite: conferir se o custo unitário de 64,19 está correto. A linha pode estar certa ou pode esconder um coeficiente de mão de obra dobrado; quem lê não tem como saber.
O que tem no orçamento analítico
O analítico abre cada linha do sintético na sua composição. A mesma alvenaria:
| Insumo / mão de obra | Unid. | Coeficiente | Preço (R$) | Parcial (R$/m²) |
|---|---|---|---|---|
| Bloco cerâmico 9×19×29 cm | un | 17,50 | 1,30 | 22,75 |
| Argamassa de assentamento | m³ | 0,0120 | 520,00 | 6,24 |
| Pedreiro com encargos | h | 0,80 | 32,00 | 25,60 |
| Servente com encargos | h | 0,40 | 24,00 | 9,60 |
| Custo unitário | 64,19 |
Valores ilustrativos.
Com o analítico, é possível conferir:
- Coeficientes de consumo: 17,5 blocos por m² é coerente com o bloco e a junta especificados? 0,80 h de pedreiro por m² condiz com a produtividade da equipe?
- Preço de cada insumo e a sua data-base;
- Insumos repetidos ou esquecidos (a argamassa está aqui ou foi orçada à parte também?);
- Encargos aplicados à mão de obra.
O analítico costuma vir acompanhado da lista de insumos consolidada — quanto de cada material, hora de mão de obra e hora de equipamento o orçamento inteiro consome. É essa lista que alimenta a Curva ABC de insumos e o planejamento de compras.
Comparação direta
| Aspecto | Sintético | Analítico |
|---|---|---|
| Nível de detalhe | serviço | insumo dentro do serviço |
| Responde a | quanto custa cada serviço | de onde vem cada custo unitário |
| Público principal | cliente, diretoria, financeiro | orçamentista, fiscal, auditor, comprador |
| Usado para | proposta, medição, cronograma | conferência, negociação, compras, revisão |
| Tamanho | dezenas a centenas de linhas | milhares de linhas |
| Revela erro de coeficiente | não | sim |
Quando cada um é exigido
Obras públicas. O Decreto nº 7.983/2013, que trata do orçamento de referência de obras com recursos da União, e a Lei nº 14.133/2021 tratam o orçamento a partir de composições de custo unitário com referência nos sistemas oficiais (SINAPI e SICRO). Na prática, editais pedem a planilha sintética e as composições analíticas dos custos unitários da proposta, além da composição do BDI e dos encargos sociais. Sem o analítico, o fiscal não consegue verificar se um preço acima da referência é justificável. Mais detalhes em orçamento de referência para licitação de obras.
Financiamento. Agentes financeiros pedem o orçamento discriminado por etapa para montar o cronograma de liberação. O sintético com subtotais por etapa costuma bastar para a liberação; o analítico entra quando há divergência de valor.
Obra privada. O cliente normalmente recebe o sintético. O analítico fica com a construtora — e é ele que protege a margem, porque é onde se descobre que um serviço foi orçado com produtividade irreal.
Onde um sintético engana
Três situações reais em que o sintético parece certo e o analítico mostra o problema:
- Coeficiente de mão de obra copiado de outra tipologia. Revestimento cerâmico em fachada orçado com a composição de piso interno: o custo unitário fica baixo, a linha passa despercebida e o prejuízo aparece no primeiro mês de execução.
- Insumo contado duas vezes. Concreto usinado com bombeamento incluído na composição e, ao mesmo tempo, uma linha separada de "locação de bomba". O sintético mostra duas linhas plausíveis; só a composição revela a duplicidade.
- Mês de referência misturado. Metade dos insumos com preço de seis meses atrás. O total parece razoável, mas o orçamento não tem data-base defensável — e o reajuste do contrato vai partir de um ponto errado.
Nos três casos, a revisão por Curva ABC ajuda a achar o erro: os itens de maior peso merecem a abertura completa da composição, item a item. Veja como montar a Curva ABC.
Dois relatórios, uma base
O erro de processo mais caro é manter o sintético e o analítico em arquivos diferentes. Quando o cliente pede para trocar o bloco cerâmico por bloco de concreto, alguém muda o custo unitário no sintético e esquece a composição — ou o contrário. Na terceira revisão, ninguém sabe qual dos dois está certo.
A forma correta é montar o orçamento uma vez, no nível das composições, e gerar o sintético e o analítico como relatórios. Qualquer mudança de coeficiente ou de preço aparece nos dois ao mesmo tempo. Em planilha, isso exige que o sintético busque o custo unitário por fórmula na aba de composições, e que ninguém digite valor por cima.
No orçamento do EVOP, o orçamento é estruturado em capítulos, serviços, composições e insumos, e o sintético, o analítico, as composições analíticas, a Curva ABC e a memória de BDI saem como relatórios da mesma base. Quando a composição muda, todos mudam juntos — e o histórico de revisões guarda o que mudou entre uma versão e outra. As composições usadas vêm das bases de preços e composições, oficiais ou próprias da empresa.
Agende uma demonstração e traga um caso real da sua obra para a conversa.
Perguntas frequentes
O orçamento sintético inclui BDI?
Normalmente sim: ele termina com o custo direto total, o percentual de BDI e o preço final. Alguns modelos apresentam o custo unitário já com BDI em cada linha; nesse caso, a planilha deve indicar isso no cabeçalho.
O orçamento analítico é obrigatório em obra privada?
Não há exigência legal para obra entre particulares, mas é o único jeito de conferir e defender o custo unitário numa negociação ou numa discussão de aditivo.
Qual dos dois uso para medir a obra?
A medição usa as linhas e quantidades do sintético (ou do contrato derivado dele). O analítico serve para discutir preço de serviço novo ou alteração de especificação.




