Toda linha de um orçamento detalhado tem por trás uma composição de custo unitário. Ela define quanto custa produzir uma unidade de serviço — um metro quadrado de emboço, um metro cúbico de concreto lançado, um quilo de armadura montada. Se a composição está errada, o erro se multiplica pela quantidade: um centavo a mais por metro quadrado em 20 mil m² de revestimento vira R$ 200. Este artigo aprofunda a etapa 3 do guia de orçamento de obra.

Para a sua construtora: um centavo a mais por metro quadrado, multiplicado por milhares de metros, vira dinheiro de verdade. É na composição que a margem é ganha ou perdida antes de a obra começar.

O que é composição de custo unitário

Composição de custo unitário (CPU) é a relação dos insumos — materiais, mão de obra e equipamentos — necessários para executar uma unidade de um serviço, cada um com seu coeficiente de consumo e seu preço. A soma dos produtos coeficiente × preço é o custo unitário direto do serviço, sem BDI.

Toda composição tem quatro elementos fixos:

  1. Descrição e unidade do serviço — "emboço de parede interna, espessura 2 cm, argamassa 1:2:8, por m²". A unidade define o que o coeficiente significa.
  2. Insumos — cada material, categoria de mão de obra e equipamento.
  3. Coeficientes — quanto de cada insumo por unidade de serviço.
  4. Preços dos insumos, com data-base.

Os três tipos de coeficiente

Material. Quantidade consumida por unidade de serviço, já incluindo a perda. Se um metro quadrado de emboço de 2 cm consome teoricamente 0,020 m³ de argamassa e a perda considerada é de 10%, o coeficiente é 0,022 m³/m². A perda não costuma aparecer separada — por isso, quem compara consumo real com orçado precisa saber que ela está ali dentro.

Mão de obra. Horas de cada categoria por unidade de serviço (h/m², h/m³). É o inverso da produtividade: se um pedreiro produz 12,5 m² de emboço em 8 horas, o coeficiente é 8 ÷ 12,5 = 0,64 h/m². O coeficiente de mão de obra é o número que mais varia entre empresas, obras e equipes, e o que mais pesa no resultado.

Equipamento. Horas de uso por unidade. Bases como o SINAPI separam o custo horário produtivo (equipamento operando, com combustível e operador) do improdutivo (parado à disposição do serviço, com custos de propriedade, mas sem consumo de combustível). Uma betoneira que fica ligada só parte do tempo em que a equipe está trabalhando entra nas duas parcelas.

Exemplo completo: emboço com composição auxiliar

O emboço consome argamassa, e a argamassa tem a sua própria composição. Em vez de repetir cimento, cal e areia dentro de cada serviço que usa argamassa, cria-se uma composição auxiliar por m³ e o serviço consome "m³ de argamassa".

Composição auxiliar — argamassa 1:2:8 (cimento, cal e areia), preparo mecânico, por m³:

InsumoUnid.CoeficientePreço (R$)Parcial (R$)
Cimento Portland CP IIkg160,000,85136,00
Cal hidratadakg160,000,90144,00
Areia médiam³1,15120,00138,00
Betoneira 400 L — hora produtivah0,904,504,05
Servente com encargosh6,0024,00144,00
Custo por m³566,05

Composição principal — emboço interno, e = 2 cm, por m²:

InsumoUnid.CoeficientePreço (R$)Parcial (R$)
Argamassa 1:2:8 (composição auxiliar)m³0,0220566,0512,45
Pedreiro com encargosh0,6432,0020,48
Servente com encargosh0,3224,007,68
Custo unitário40,61

Valores ilustrativos para mostrar a mecânica; coeficientes e preços devem vir da base de referência ou do histórico da empresa, na data-base do orçamento.

Repare em três coisas:

  • O custo de mão de obra (20,48 + 7,68 = 28,16) pesa mais que o material (12,45). Em serviços de revestimento, acabamento e alvenaria isso é comum — e é por isso que a produtividade decide a margem.
  • A perda de argamassa está embutida no 0,0220.
  • Se o preço da cal mudar, basta atualizar a auxiliar: todo serviço que usa argamassa 1:2:8 muda junto. O inverso também vale — um erro na auxiliar contamina dezenas de serviços.

Como ler uma composição de base oficial

Bases como o SINAPI publicam, além das composições, cadernos técnicos com as premissas de cada uma: o que está incluído, como o serviço é medido, que produtividade foi considerada e em que condições. Antes de usar uma composição de referência, confira:

  • Escopo incluído. O emboço inclui o chapisco? A alvenaria inclui verga e contraverga? A resposta muda a quantidade de linhas do orçamento.
  • Critério de medição. Vãos são descontados? Acima de que área? A quantidade levantada precisa seguir o mesmo critério da composição — senão o custo unitário certo é multiplicado pela quantidade errada.
  • Condições de execução. Altura, acesso, tipo de substrato. Uma fachada com balancim não tem a produtividade de uma parede interna.
  • Regime de encargos. A mesma composição tem custo diferente nos relatórios desonerado e não desonerado. Veja SINAPI desonerado ou não desonerado.

Ajustando coeficientes com dados da obra

A composição de referência representa uma produtividade média. A sua equipe pode ser mais ou menos produtiva, e o orçamento só reflete isso se o coeficiente for ajustado com dado medido. Um procedimento simples:

  1. Escolha o serviço pelo peso na Curva ABC — não vale medir tudo.
  2. Meça por vários dias, em condições comparáveis: quantidade executada por dia e horas de cada categoria alocadas ao serviço.
  3. Calcule o coeficiente: horas totais da categoria ÷ quantidade total executada.
  4. Inclua o tempo que a composição inclui — preparo, limpeza, deslocamento interno. Medir só o tempo de aplicação produz coeficiente otimista.
  5. Registre a origem: obra, período, condições. Coeficiente sem origem é tão confiável quanto um chute.

Exemplo: em dez dias de emboço interno, a equipe de 2 pedreiros e 1 servente executou 260 m², com 160 horas de pedreiro e 80 de servente.

  • Pedreiro: 160 ÷ 260 = 0,615 h/m²
  • Servente: 80 ÷ 260 = 0,308 h/m²

Comparado com a composição usada no orçamento (0,64 e 0,32), a equipe está 4% mais produtiva. É uma diferença pequena, dentro da variação normal — não justifica mudar a composição da empresa com uma única amostra. Diferenças acima de 15% a 20%, repetidas em obras diferentes, justificam criar uma composição própria. O método de medição está detalhado em produtividade da mão de obra e RUP.

Composição própria: quando vale a pena

Faz sentido criar composição própria quando:

  • a empresa executa o serviço com método diferente da referência (bloco estrutural, drywall, argamassa projetada);
  • há histórico medido, de várias obras, mostrando produtividade consistentemente diferente;
  • o insumo usado não existe na base.

E não faz sentido quando a única motivação é "baixar o preço para ganhar a obra". Coeficiente otimista sem medição só transfere o prejuízo para a execução.

Uma composição própria deve guardar a referência de onde derivou (por exemplo, "derivada da composição X do SINAPI, coeficiente de pedreiro ajustado com medição das obras A e B"). Isso é o que permite defendê-la numa auditoria ou numa discussão de aditivo.

Erros comuns em composições

ErroEfeito
Unidade do serviço diferente da unidade de medição do projetoquantidade e custo unitário não conversam
Perda contada duas vezes (no coeficiente e numa linha "perdas")custo inflado
Equipamento só com hora produtivacusto subestimado em serviços com equipamento parado à disposição
Mão de obra sem encargos, ou com encargos aplicados duas vezeserro de 80% a 120% na mão de obra
Composição auxiliar desatualizadaerro espalhado em todos os serviços que a usam

Uma base de composições por empresa

O problema prático não é montar uma composição — é manter centenas delas coerentes. Quando cada orçamentista tem a sua planilha, a mesma alvenaria aparece com três custos unitários diferentes em três propostas, e ninguém sabe qual foi a referência usada.

Nas bases de preços e composições do EVOP, as composições oficiais (SINAPI, SICRO, ORSE e outras, por estado e mês de referência) ficam ao lado das composições próprias da empresa, derivadas delas, com produtividades e coeficientes ajustados — e reaproveitadas em todos os orçamentos. Cada serviço abre na composição analítica, com insumos, coeficientes e preços, e o orçamento usa sempre a mesma fonte.

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre composição e insumo?

Insumo é o recurso básico (cimento, hora de pedreiro, hora de betoneira). Composição é a combinação de insumos, com coeficientes, que produz uma unidade de serviço. Uma composição pode usar outra composição (auxiliar) como se fosse insumo.

O coeficiente de material já inclui perda?

Nas bases de referência, em geral sim. Confira no caderno técnico da composição antes de somar perda por fora.

De quanto em quanto tempo devo revisar minhas composições próprias?

Os preços mudam a cada orçamento (data-base). Os coeficientes devem ser revistos sempre que houver medição nova e consistente — no mínimo, ao final de cada obra, comparando consumo real com orçado.

Fontes e referências