"A obra deu lucro?" é uma pergunta que muitas construtoras só conseguem responder meses depois da entrega — e, às vezes, nem assim, porque os custos de várias obras se misturaram no caminho. O DRE por obra transforma essa pergunta em um relatório mensal: quanto a obra faturou, quanto custou, quanto sobrou e como isso se compara com o que o orçamento previa.

Para a diretoria: saber a margem de cada obra durante a execução — e não um ano depois — é o que permite agir enquanto ainda há obra para salvar.

O que é DRE por obra

DRE por obra é a demonstração do resultado de cada obra em um período, pelo regime de competência: receita reconhecida, menos tributos sobre a receita, menos custos diretos incorridos, menos a parcela rateada dos custos indiretos, resultando na margem e no resultado da obra. É um relatório gerencial — não substitui a contabilidade, mas deve ser conciliável com ela.

Estrutura

LinhaConteúdo
Receita brutamedições aprovadas no período (e reajustes)
(−) Tributos sobre a receitaPIS, COFINS, ISS e, quando aplicável, CPRB
= Receita líquida
(−) Custos diretosmateriais aplicados, mão de obra própria com encargos, empreiteiros, equipamentos, administração local
= Margem bruta (de contribuição)quanto a obra deixa para pagar a estrutura e gerar lucro
(−) Rateio de indiretosparcela da administração central
= Resultado da obra

Tributos sobre o lucro (IRPJ e CSLL) ficam, em geral, no resultado da empresa, não da obra.

Receita: o que reconhecer

  • Empreitada: a medição aprovada do período é a referência gerencial mais simples e auditável. Se houver serviço executado e não medido (ou medido antes de executar), o DRE do período fica distorcido — compare sempre com o avanço físico. Ver avanço físico da obra.
  • Administração (preço de custo): a remuneração do construtor (taxa de administração) é a receita; o custo da obra é do dono.
  • Incorporação: o reconhecimento da receita de venda de unidades segue normas contábeis próprias (o CPC 47 e orientações específicas do setor), em geral ligado ao avanço da obra. Alinhe o critério gerencial com a contabilidade.

Custo: competência, não caixa

O custo do período é o que foi consumido na obra no período:

  • material aplicado (saída do estoque para a etapa), não material comprado;
  • serviço de empreiteiro medido no período;
  • folha e encargos do período;
  • equipamentos pelo uso (horas) ou pela locação do período.

Material comprado e não aplicado é estoque. Se for lançado como custo na compra, o DRE mostra prejuízo no mês da compra do aço e lucro nos meses seguintes — e ninguém consegue ler a margem. Ver almoxarifado de obra.

Exemplo: obra com 6,2 milhões medidos

Acumulado até o mês, em R$ mil. A coluna "orçado" é o resultado que o orçamento previa para o mesmo avanço (o orçado dos serviços executados).

Orçado (mesmo avanço)Realizado
Receita bruta (medições)6.200,06.200,0
(−) Tributos (6,15%)381,3381,3
Receita líquida5.818,75.818,7
Materiais1.820,0
Mão de obra própria640,0
Empreiteiros1.580,0
Equipamentos210,0
Administração local420,0
(−) Custos diretos4.620,04.670,0
Margem bruta1.198,7 (19,3%)1.148,7 (18,5%)
(−) Rateio de indiretos372,0480,0
Resultado da obra826,7 (13,3%)668,7 (10,8%)

Leitura:

  • A margem bruta está 0,8 ponto abaixo do orçado — R$ 50 mil de custo direto acima do previsto para o que foi executado. A abertura por etapa mostra onde: ver controle de custos de obra.
  • O resultado caiu 2,5 pontos, e a maior parte da queda (R$ 108 mil) vem do rateio: a sede está custando mais do que a parcela de administração central prevista no BDI. Ver rateio de custos indiretos.

Sem o DRE por obra, a diretoria veria só que a empresa ganhou menos que o esperado; com ele, sabe que o problema principal está na estrutura, não na obra.

Margem prevista × realizada ao longo da obra

Acompanhe mês a mês a margem bruta acumulada realizada contra a orçada para o mesmo avanço. Desvios que crescem pedem ação; desvios estáveis indicam um erro de orçamento que já está "contratado" e precisa ser levado ao próximo orçamento.

MêsAvanço físicoMargem bruta orçadaMargem bruta realizada
322%19,3%19,8%
647%19,3%18,9%
971%19,3%18,5%

A tendência de queda (19,8% → 18,5%) é o sinal. Na projeção até o fim, ela vale mais que o número do mês.

DRE da obra × fluxo de caixa da obra

O DRE diz se a obra dá resultado; o fluxo de caixa diz se a empresa aguenta financiá-la até lá. Os dois são necessários, e confundi-los é um erro comum: obra com resultado positivo e caixa negativo é normal na primeira metade. Ver fluxo de caixa de obra.

E na obra por administração?

No regime de administração (preço de custo), o custo da obra é do cliente. O DRE da construtora para essa obra mostra apenas a taxa de administração como receita e os custos que a construtora efetivamente assume (equipe de gestão não reembolsável, parcela da sede). Misturar os custos do cliente no DRE da construtora infla receita e custo e distorce a margem da empresa. Ver tipos de empreitada.

O que o DRE por obra exige

  1. Cada receita e cada custo ligados à obra — ver centro de custo.
  2. Custo por competência — saída de estoque, medição, folha do período.
  3. Rateio com critério definido.
  4. Orçado para o mesmo avanço, para comparar.
  5. Fechamento mensal na mesma data em todas as obras.

DRE vivo, por obra e consolidado

No DRE e indicadores do EVOP, receitas e custos nascem classificados nos processos, os indiretos são rateados por critério, e o DRE de cada obra, de cada empreendimento e da empresa é atualizado durante a execução, com a margem prevista × realizada por obra. O resultado de cada obra também aparece no painel de obras, ao lado do avanço físico e financeiro.

Agende uma demonstração e traga um caso real da sua obra para a conversa.

Perguntas frequentes

Como calcular o resultado de uma obra?

Receita reconhecida (medições), menos tributos sobre a receita, menos custos diretos incorridos no período, menos o rateio dos custos indiretos. Compare com o resultado orçado para o mesmo avanço físico.

DRE por obra usa regime de caixa ou competência?

Competência. Receita quando é medida, custo quando é consumido. O regime de caixa é o do fluxo de caixa.

O rateio da sede entra no DRE da obra?

No DRE gerencial, sim, depois da margem bruta. Mostre as duas linhas: a margem bruta indica se a obra se paga; o resultado após rateio, se ela contribui para a empresa.

Fontes e referências