Três obras, três margens diretas saudáveis — e uma empresa que fecha o ano no zero a zero. A conta que falta é a da sede: diretoria, engenharia de apoio, compras, financeiro, comercial, aluguel, sistemas. Esses custos não pertencem a nenhuma obra, mas existem por causa delas. Enquanto não forem distribuídos, a margem de cada obra está superestimada, e as decisões sobre que tipo de obra buscar também. (Para o caixa, a sede sai do fluxo de caixa todo mês, com ou sem rateio; o rateio é questão de resultado.)

Para o dono da construtora: a obra pode ter margem boa e a empresa dar prejuízo. O rateio mostra quanto a sede custa para cada obra — e se o preço está cobrindo a estrutura.

O que é rateio de custos indiretos

Rateio de custos indiretos é a distribuição, entre as obras (ou empreendimentos), dos custos que não podem ser atribuídos diretamente a nenhuma delas — os da administração central e das áreas de apoio —, segundo um critério definido, para apurar o resultado gerencial de cada obra.

Direto, indireto e administração local

TipoExemploTratamento
Custo direto da obramaterial, empreiteiro, mão de obra da obraapropriado na obra (e na etapa)
Administração localengenheiro residente, mestre, canteirocusto direto da obra — não é rateio
Custo de apoio compartilhadoequipamentos próprios, central de armaçãodistribuído pelo uso (horas, kg)
Indireto da administração centraldiretoria, financeiro, compras, comercial, sederateado

A administração local é da obra, mesmo sendo "administração". Tratá-la como indireto distorce o custo da obra e o rateio. Ver centro de custo na construtora.

Os critérios mais usados

CritérioLógicaBom paraDistorção típica
Proporcional ao custo diretoquem gasta mais usa mais a sedediretoria, despesas geraisobras com muito material comprado pelo cliente parecem "baratas" de gerir
Proporcional à receita (medição)quem fatura mais carrega maisquando a margem é homogêneaobras com margem alta subsidiam as de margem baixa
Partes iguaistoda obra demanda a sede igualmenteáreas com esforço fixo por obraobra pequena fica inviável no papel
Pela causa (horas, transações)horas de engenharia, número de pedidos, medições processadasáreas de apoio (compras, engenharia, financeiro)exige registrar o esforço

Não é preciso usar um só. Uma combinação comum: compras rateado pelo número de pedidos; engenharia de apoio por horas apontadas; financeiro por número de lançamentos; diretoria e sede pelo custo direto.

Exemplo: o mesmo mês, quatro critérios

Custo da administração central no mês: R$ 120 mil. Valores em R$ mil:

ObraReceita (medição)Custo diretoMargem direta%
A1.10090020018,2%
B5605006010,7%
C2602006023,1%

Dedicação da equipe de apoio, por horas apontadas: A 45%, B 25%, C 30%.

Margem depois do rateio:

CritérioObra AObra BObra C
Custo direto132,5 (12,0%)22,5 (4,0%)45,0 (17,3%)
Receita131,2 (11,9%)25,0 (4,5%)43,8 (16,8%)
Partes iguais160,0 (14,5%)20,0 (3,6%)20,0 (7,7%)
Dedicação (horas)146,0 (13,3%)30,0 (5,4%)24,0 (9,2%)

A obra C — pequena, com margem direta alta — parece a melhor da empresa pelo custo direto (17,3%) e uma das piores em partes iguais (7,7%). Pela dedicação medida, fica com 9,2%: ela consome 30% do tempo do apoio para gerar 13,5% da receita. A decisão de buscar mais obras como a C depende de qual número é verdadeiro — e o mais defensável é o que reflete o consumo real de recursos da sede.

A ligação com o BDI

Toda proposta embute uma parcela de administração central no BDI (AC). Compare o que o BDI cobra com o que a sede custa:

  • Custo direto total do mês das três obras: R$ 1.600 mil.
  • AC média embutida nos BDIs das propostas: 4% → R$ 64 mil.
  • Custo real da sede: R$ 120 mil.

A sede custa quase o dobro do que as propostas cobram dela. Não é problema de rateio: é de preço (BDI subdimensionado) ou de estrutura (sede grande demais para o volume de obras). Esse é o cálculo que deveria definir a parcela de AC do BDI: custo anual da sede ÷ custo direto anual previsto.

Rateio e preço da próxima obra

O rateio não serve só para olhar para trás. Se a obra C, pelo critério de dedicação, consome 30% do tempo da equipe de apoio, a próxima proposta de uma obra parecida deveria carregar essa estrutura no BDI — ou a empresa deveria decidir, conscientemente, que aceita uma margem menor nesse tipo de obra por outro motivo (cliente estratégico, ocupação da equipe). O que não pode é a decisão ser tomada sem o número.

O mesmo raciocínio vale para crescer: uma sede dimensionada para cinco obras que passa a atender três tem um custo por obra muito maior. O rateio mostra isso mês a mês.

Boas práticas

  1. Defina o critério por área, por escrito, antes do ano começar — e não mude no meio.
  2. Meça o esforço quando o critério for por causa: horas de engenharia, número de pedidos.
  3. Mostre a margem direta e a margem após rateio lado a lado. A direta diz se a obra se paga; a após rateio diz se ela contribui para a empresa.
  4. Rateie no gerencial, não no contábil. O rateio é ferramenta de decisão; a contabilidade tem regras próprias.
  5. Revise o BDI quando o custo da sede sobre o custo direto mudar.

Rateio configurado, resultado por obra

No DRE e indicadores do EVOP, os custos indiretos são distribuídos às obras por critério definido, e o DRE de cada obra, do empreendimento e da empresa mostra a margem prevista × realizada já com o rateio. Os custos diretos chegam apropriados por obra e etapa pela apropriação de custos. Para o passo seguinte, veja DRE por obra.

Para ver esse fluxo no EVOP com uma obra sua, fale com um especialista.

Perguntas frequentes

Qual o melhor critério de rateio de custos indiretos?

O que melhor reflete o consumo real dos recursos da sede pelas obras. Para áreas de apoio, critérios por causa (horas, número de pedidos); para diretoria e despesas gerais, custo direto ou receita.

Administração local é custo indireto?

Não. Engenheiro residente, mestre e canteiro são custos diretos da obra, apropriados nela. O rateio trata da administração central.

O rateio deve ser feito todo mês?

Sim, junto com o fechamento gerencial, com o mesmo critério ao longo do ano.