Quando se fala em desperdício de materiais na construção, a imagem é a caçamba cheia de pedaços de bloco. Ela é real, mas costuma ser a menor parte do problema. A perda mais cara muitas vezes não sai da obra: fica nela — na parede rebocada com 3 cm onde o projeto previa 2 cm, na laje mais grossa, no aço que sobrou do corte. E como não aparece em lugar nenhum, também não é combatida.
Para a sua construtora: a perda que mais custa não está na caçamba, está dentro da parede. Medir é o primeiro passo para cortar.
Desperdício de materiais na construção: o que é perda
Perda de material é a quantidade consumida além da necessária para executar o serviço conforme o projeto:
Índice de perda = (consumo real − consumo teórico) ÷ consumo teórico
- Consumo teórico: o que o projeto exige, sem perdas (volume geométrico do concreto, peso do aço do quadro de ferros, espessura de projeto do reboco).
- Consumo real: o que efetivamente saiu do estoque (ou foi recebido, no caso do concreto) para aquele serviço.
Pesquisas brasileiras sobre perdas em canteiros, conduzidas pela Escola Politécnica da USP e parceiros no fim da década de 1990, mostraram uma variação muito grande entre obras para o mesmo material — o que indica que boa parte da perda é evitável e depende de gestão, não de fatalidade.
Os três tipos de perda
| Tipo | O que é | Exemplo | Visível? |
|---|---|---|---|
| Entulho | material que vira resíduo | bloco quebrado, argamassa que caiu, sobra de corte | sim, na caçamba |
| Incorporada | material a mais que fica no serviço | reboco mais espesso, contrapiso mais alto, laje com sobre-espessura | não |
| Estoque | material perdido antes de ser usado | cimento empedrado, cerâmica quebrada no transporte interno, extravio, furto | só no inventário |
Como medir
Para medir, são necessários dois dados por serviço e período:
- Quantidade executada — da medição física (m² de reboco, m³ de laje).
- Material consumido — das saídas de estoque com destino na etapa, ou das notas de recebimento quando o material vai direto ao serviço (concreto usinado).
Sem saída de estoque por etapa, não há medição de perda — só a percepção de que "está gastando muito". Ver almoxarifado de obra.
Exemplo 1: concreto de laje
- Volume geométrico da laje (projeto): 25,20 m³
- Volume recebido nas notas de remessa: 26,90 m³
- Perda: (26,90 − 25,20) ÷ 25,20 = 6,7%
Se o orçamento considerou 3% no coeficiente, a obra está consumindo mais do que o dobro da perda prevista. Causas prováveis: sobre-espessura (forma mal nivelada, flecha do escoramento), sobra no último caminhão, bombeamento.
Exemplo 2: aço
- Peso do quadro de ferros do pavimento: 2.100 kg
- Saídas de estoque para a armação do pavimento: 2.260 kg
- Perda: 7,6%
Com aço cortado e dobrado pelo fornecedor, a perda na obra deveria ser pequena; um valor desses indica sobra não reaproveitada, emendas a mais ou saída lançada no pavimento errado.
Exemplo 3: reboco — a perda incorporada
- Área rebocada: 8.000 m²
- Espessura de projeto: 2,0 cm → consumo teórico de argamassa: 160 m³
- Espessura média medida (por amostragem com furos ou pelo consumo): 2,8 cm → consumo real: 224 m³
- Perda incorporada: 40%, ou 64 m³ de argamassa
A R$ 566/m³ de argamassa (valor ilustrativo, da composição auxiliar do artigo sobre composição de custo unitário), são R$ 36.224 só de material — mais a mão de obra para aplicar a espessura extra. E nada disso aparece na caçamba.
A causa raramente está no reboco: está no prumo e no esquadro da estrutura e da alvenaria, que obrigam a "tirar o desaprumo" com argamassa.
Onde as perdas nascem
| Origem | Exemplos | Ação |
|---|---|---|
| Projeto | alvenaria sem modulação (muito recorte), pé-direito que não fecha com o bloco | projeto de produção, modulação |
| Suprimento | lote acima do necessário, embalagem inadequada, entrega sem paletização | planejamento de compras, especificar entrega |
| Recebimento | aceitar material avariado | conferência no recebimento |
| Armazenamento | cimento na umidade, cerâmica empilhada errado | regras de estocagem |
| Transporte interno | quebra no carrinho, no guincho | paletes, equipamentos adequados |
| Execução | prumo e esquadro ruins, traço feito na pá, sobras não reaproveitadas | gabaritos, controle de traço, conferência de prumo antes do revestimento |
| Retrabalho | demolir e refazer | conferência por etapa antes de liberar a seguinte |
Quanto a perda pesa no orçamento
Perdas de material estão embutidas nos coeficientes das composições — ver composição de custo unitário. Se a perda real for maior que a do orçamento, o custo do serviço estoura sem que o preço de nenhum material tenha subido. É um dos desvios que o controle de custos por etapa revela e que a análise só por preço de compra não vê.
Como reduzir, na prática
- Meça os materiais da curva A (concreto, aço, argamassa, bloco, revestimento) por etapa, todo mês.
- Compare com o coeficiente do orçamento, não com uma "perda aceitável" genérica.
- Investigue a causa quando a perda real passar da orçada — no projeto, no suprimento, na execução.
- Corrija na origem: prumo da estrutura antes do revestimento; modulação antes da alvenaria; paletização na entrega.
- Leve a perda real para o próximo orçamento no encerramento da obra.
Consumo real × orçado por etapa
A medida de perda é, no fundo, um previsto × realizado de consumo de material por serviço. Na apropriação de custos do EVOP, as saídas de estoque são apontadas nas etapas do orçamento, e o previsto × realizado por serviço e por insumo mostra onde o consumo desviou. O controle de estoque registra as saídas por obra, os inventários e os ajustes com justificativa — inclusive as perdas de armazenamento.
Agende uma demonstração e traga um caso real da sua obra para a conversa.
Perguntas frequentes
Como calcular a perda de material na obra?
Divida a diferença entre o consumo real e o consumo teórico (pelo projeto) pelo consumo teórico. O consumo real vem das saídas de estoque por etapa ou das notas, para materiais entregues direto no serviço.
Qual a maior causa de desperdício na construção civil?
Varia por material e por obra. Em revestimentos e concreto, a perda incorporada (espessura acima do projeto) costuma ser mais cara que o entulho, e nasce de problemas de prumo, nível e esquadro em etapas anteriores.
Perda de material está prevista no orçamento?
Sim, nas composições, dentro do coeficiente de consumo de cada material. O controle compara a perda real com essa previsão.
Fontes e referências
- AGOPYAN, V.; PALIARI, J. C.; SOUZA, U. E. L. Metodologia de coleta e análise de informações sobre consumo e perdas de materiais e componentes nos canteiros de obras. In: Congresso Latino-Americano Tecnologia e Gestão na Produção de Edifícios. São Paulo: PCC-USP, 1998.
- PALIARI, J. C. Metodologia para a coleta e análise de informações sobre consumos e perdas de materiais e componentes nos canteiros de obras de edifícios. Dissertação (Mestrado) — Escola Politécnica da USP




