Num relatório de obra, é comum ver lado a lado "custo realizado: 41% do orçamento" e "prazo decorrido: 50%". Os dois números são verdadeiros e quase inúteis juntos: gastar 41% na metade do prazo pode ser ótimo ou péssimo, dependendo de quanto da obra foi executado. A análise de valor agregado resolve isso introduzindo um terceiro número — o valor do que foi feito.

Para a diretoria: com três números a análise de valor agregado diz se a obra está atrasada, se está gastando além do que produziu e quanto deve custar no fim — antes do fechamento.

O que é análise de valor agregado

Análise de valor agregado (Earned Value Management, EVM) é um método de controle que integra escopo, prazo e custo comparando, numa data de referência, o valor planejado do trabalho, o valor orçado do trabalho efetivamente executado (valor agregado) e o custo real incorrido. Desses três números saem índices de desempenho e projeções de custo e prazo final.

Os três números básicos

Sigla (PT)Sigla (EN)NomePergunta
VPPVValor planejadoquanto do orçamento deveria ter sido executado até hoje?
VAEVValor agregadoquanto do orçamento corresponde ao que foi executado?
CRACCusto realquanto custou o que foi executado?
ONTBACOrçamento no términoorçamento total aprovado

O VP sai do cronograma (é a Curva S prevista em reais). O VA sai da medição física: o orçado de cada atividade × o percentual executado. O CR sai da apropriação de custos — custo realizado, não pago.

Exemplo: uma obra no 5º mês

Obra de dez meses com orçamento de R$ 2.000.000.

  • VP: o cronograma previa 44% executado → R$ 880.000
  • VA: a medição física mostra 37% executado → R$ 740.000
  • CR: custo realizado apropriado → R$ 820.000

Variações

  • Variação de custo (VC) = VA − CR = 740.000 − 820.000 = −R$ 80.000 A obra gastou R$ 80 mil a mais do que o orçamento previa para o que já fez.
  • Variação de prazo (VPr) = VA − VP = 740.000 − 880.000 = −R$ 140.000 Deixou de executar R$ 140 mil de serviço que estava programado. (É uma variação de prazo medida em reais.)

Índices

  • IDC (índice de desempenho de custo) = VA ÷ CR = 740 ÷ 820 = 0,90 Cada R$ 1,00 gasto produziu R$ 0,90 de obra orçada.
  • IDP (índice de desempenho de prazo) = VA ÷ VP = 740 ÷ 880 = 0,84 A obra está produzindo 84% do ritmo planejado.
ÍndiceMaior que 1Igual a 1Menor que 1
IDCgastando menos que o orçadono orçamentogastando mais que o orçado
IDPadiantadano prazoatrasada

Três projeções de custo final

A estimativa no término (ENT) depende da hipótese sobre o desempenho futuro:

1. O desvio foi pontual e não vai se repetir: ENT = CR + (ONT − VA) = 820 + (2.000 − 740) = R$ 2.080.000

2. A eficiência de custo atual vai continuar: ENT = ONT ÷ IDC = 2.000 ÷ 0,902 = R$ 2.216.000

3. Custo e prazo continuarão afetando o resultado (comum quando o atraso gera custo, como administração local e equipamentos parados): ENT = CR + (ONT − VA) ÷ (IDC × IDP) = 820 + 1.260 ÷ 0,759 = R$ 2.480.000

As três respostas formam uma faixa de risco: entre 4% e 24% acima do orçamento. A conversa com a diretoria muda de "estamos gastando demais" para "se nada mudar, fechamos entre R$ 2,08 e R$ 2,48 milhões; a hipótese mais provável, pelo que vemos nas etapas, é tal".

A escolha da hipótese não é estatística, é de engenharia: o desvio veio de um evento (uma concretagem perdida) ou de uma causa que persiste (produtividade, preço de insumo, atraso que arrasta a administração local)?

IDPT: quanto a obra precisaria melhorar

O índice de desempenho para término responde: que IDC a obra precisa ter daqui para a frente para fechar no orçamento?

IDPT = (ONT − VA) ÷ (ONT − CR) = 1.260 ÷ 1.180 = 1,07

A obra precisaria produzir, até o fim, 7% acima da eficiência orçada — depois de cinco meses rodando 10% abaixo. Um IDPT muito acima de 1 é um sinal claro de que o orçamento original não será cumprido e de que a conversa deveria ser sobre a nova meta, não sobre recuperar tudo.

Projeção de prazo

Uma estimativa simples do prazo final é dividir o prazo planejado pelo IDP: 10 ÷ 0,84 ≈ 11,9 meses. É uma aproximação grosseira — o IDP baseado em valor tende a voltar para 1 no fim da obra, mesmo atrasada, porque todo o valor planejado acaba sendo executado. Para prazo, o cronograma atualizado, com o caminho crítico recalculado, é a fonte mais confiável.

Abrindo por etapa

Os índices da obra inteira são uma média que esconde onde está o problema. Calcule VA, CR e IDC por etapa: uma estrutura com IDC de 0,95 e uma alvenaria com IDC de 0,80 pedem ações diferentes. O exemplo detalhado por etapa está em controle de custos de obra.

Cuidados na aplicação em obras

  • O VA depende do avanço físico. Avanço otimista infla o VA e faz o IDC parecer bom. Use critérios objetivos de medição: avanço físico da obra.
  • CR é custo incorrido, não pago. Material recebido e serviço medido entram, mesmo que o pagamento seja futuro.
  • Material comprado e não aplicado não é CR da atividade até ser consumido — se for tratado como custo no recebimento, o IDC das etapas de compra antecipada cai artificialmente. Defina a regra e aplique igual em todas as obras.
  • A linha de base precisa ser estável. Replanejar o VP todo mês zera a variação de prazo.

Valor agregado com dados que já existem

A análise de valor agregado não exige nenhum dado novo além de orçamento, cronograma, medição física e custo apropriado por etapa. O difícil é ter os quatro na mesma estrutura e na mesma data. No painel de obras do EVOP, cada obra reúne custos previstos e realizados por etapa e o avanço físico e financeiro, com o cronograma do planejamento e o avanço registrado na medição física — os insumos de que o cálculo precisa.

Quer ver isso funcionando com os números da sua construtora? Solicite uma demonstração.

Perguntas frequentes

O que significa IDC menor que 1?

Que a obra está gastando mais do que o orçamento previa para o trabalho já executado. Com IDC de 0,90, cada real gasto produziu 90 centavos de obra orçada.

Qual a diferença entre valor planejado e valor agregado?

Valor planejado é o orçado do que deveria estar pronto na data, segundo o cronograma. Valor agregado é o orçado do que realmente está pronto, segundo a medição física.

O EVM funciona para obra pequena?

Funciona, desde que haja orçamento por etapa, cronograma e medição física. Em obras pequenas, o cálculo por etapa principal costuma bastar.

Fontes e referências